Kléberson vestiu a camisa de poucos clubes. Aos 33 anos, apenas três
times brasileiros: Atlético Paranaense, que o revelou, Flamengo e
Bahia. Na Inglaterra, foi o primeiro brasileiro do Manchester United e
passou pelo Besiktas, da Turquia. Poucos clubes, muitas histórias.
Sobre Cristiano Ronaldo, o penta pelo Brasil e o sonho de fazer
história e, talvez, encerrar a carreira no Bahia.
"Fico nessa
alegria de poder defender uma torcida tão grande e tão forte", contou,
em entrevista ao Correio*. Após lesão, o meia quer voltar
domingo, em Pituaçu, contra o Atlético-GO.
Confira na íntegra a entrevista concedida à jornalista Daniela Leone do jornal Correio*:
Complicado para o Bahia avançar após a derrota por 2x0 para o São Paulo em Pituaçu?
Ficou um pouco, porque o time que faz dois gols fora sempre tem uma
vantagem muito grande. O São Paulo neutralizou nossa equipe dentro de
casa, mas são dificuldades que temos que superar, temos que trabalhar e
ir pra lá pensando em vencer. Dentro da partida, a gente vê se consegue
vencer com mais gols pra superar o São Paulo.
O Bahia é o primeiro clube do Nordeste que você defende. Já sentiu diferença em relação aos clubes do Sul e Sudeste?
Fica uma coisa muito fosca, porque, às vezes, quando você está jogando
contra um time grande, se tem um pênalti duvidoso, o árbitro às vezes
apita, mas, se é comum time do Nordeste, o árbitro já não tem essa
convicção de apitar. Aí já se começa a falar um monte de coisas. É mais o
clima de cultura. O que eu fico mais triste é que quem sofre com isso é
o pessoal daqui do Nordeste, pessoas que trabalham, que lutam durante a
semana, têm sua preparação pro jogo, torcedores e tudo e depois, por
erro de alguma arbitragem, você é prejudicado. Isso é bastante triste.
Então acha que não dá para encarar os clubes do Nordeste como grandes?
Não é isso. Os clubes do Nordeste são grandes, têm sua história no
futebol. O que eu tô dizendo é que, às vezes, pesa para os times lá de
baixo. Por exemplo: se fosse o Flamengo que tivesse perdido da maneira
que o Bahia perdeu contra o Grêmio, as coisas com certeza seriam
diferentes, a mídia iria mais em cima, seria completamente diferente. É
um pouco de injustiça, né? Mas nós temos que tentar mudar isso aí.
O Bahia tem elenco para suportar a pressão da Série A?
Temos sim. A nossa equipe tem jogadores experientes, que sabem lidar
com esse tipo de situação. Está faltando muito pouco pra nós. Falta a
gente conseguir fazer os gols e segurar a partida. Caio Júnior está
implementando sua filosofia e vamos melhorar.
O que é fundamental para se manter na Série A?
O mais importante é a gente ter a confiança. É uma palavra
importantíssima agora. O nosso grupo é forte, é bom, a torcida tem uma
certa desconfiança sobre nós, que é normal quando o resultado não vem,
mas a gente tem condição de dar a volta por cima e aos poucos a gente
vai sair dessa situação incômoda.
O que mudou com a chegada de Caio Júnior?
Já conhecia ele bem, gosto muito e trabalhamos no Flamengo. Ele
taticamente sabe aproveitar o jogador. Assim que a gente conseguir
assimilar, a gente vai ficar um time forte e vai crescer muito.
E o que acha da torcida?
Tava conversando esses dias com a minha esposa. A torcida do Bahia é
apaixonada mesmo, realmente é uma torcida que cobra, mas apoia. Fico
nessa alegria de poder defender uma torcida tão grande e tão forte como
essa. A força da torcida foi o que mais me impressionou aqui e ela vai
ser fundamental pra gente chegar no objetivo que estamos querendo, uma
colocação melhor, uma vaga pra Libertadores e até quem sabe futuramente
um título de Brasileiro.
O que mais pesou pra você sair do Flamengo?
O projeto que o Bahia me ofereceu. E também o crescimento da equipe, o
que pode gerar mais pra frente como estádio da Fonte Nova pronto. Então
foram coisas que eu fiquei ambicioso de poder vir pra cá e espero ter
bastante sucesso. É um começo, não foi da maneira que nós esperávamos,
mas eu vou fazer o máximo pra que as coisas aconteçam da melhor forma.
Qual a avaliação que você faz das suas primeiras partidas aqui pelo Bahia?
Faltou pra mim um pouco mais de confiança na hora de definir a jogada.
Tive dois gols perdidos nitidamente. O segundo já tava sentindo dores
na perna e acabou atrapalhando um pouquinho, mas isso é falta de ritmo,
falta deconfiança. Eu sofri um pouco também no começo por serem
jogadores diferentes, demora um pouquinho pra a gente entrosar. Tenho
certeza que posso ajudar muito mais.
Edílson e Ricardinho,
outros pentacampeões que passaram pelo Bahia, encerraram as carreiras
aqui. Planeja parar no final do contrato, em 2014?
Eu não
planejo encerrar em 2014. Minha intenção é terminar os meus três anos
de contrato com o Bahia e, se possível, renovar, pois estou muito
contente com o clube, com a cidade. A gente tem uma dificuldade no
Brasileiro pra sair dessa zona incômoda e estamos trabalhando. Fora
isso, minha intenção é cumprir esses três anos e continuar jogando. Se
as coisas caminharem da maneira que eu tenho expectativa e, se eu puder
corresponder dentro do campo também o que a diretoria e a torcida
esperam, penso sim em renovar e de repente encerrar aqui.
Você foi o primeiro brasileiro a jogar no Manchester United. Como foi jogar na Inglaterra?
Esse momento que eu vivi na carreira foi maravilhoso e tenho orgulho.
Cheguei junto com o Cristiano Ronaldo e, na época, o mais badalado era
eu por ter sido campeão do mundo; o Cristiano Ronaldo ainda era aquela
promessa. Inclusive, eles queriam me dar a camisa 7, mas eu não quis,
tenho uma cisma com a 15 porque fui campeão do mundo e quis ficar com
ela. Ele deve a mim essa marca dele, né? Porque eu deixei pra ele. Foi
bastante bacana no Manchester, fiz gol, tenho vários amigos e o nome
escrito no estádio. Isso é bacana.
Cristiano Ronaldo é marrento como se comenta?
Só quem convive com ele sabe a pessoa que ele é. Ele não é esse tipo de
pessoa que passam não, aquela coisa de marrento. Ele é vaidoso, isso
ele é. Desde que chegou lá, ele tinha essa coisa de se olhar no
espelho, de querer andar bem, arrumado, com umas roupas malucas, que eu
não usaria. A gente já tirava sarro dele. Mas é uma pessoa fantástica,
encontrei com ele no Mundial 2010, batemos vários papos e ele continua
a mesma pessoa, mas com uma estrela muito grande. Ele merece tudo que
tem.
Ronaldinho Gaúcho tinha as regalias no Flamengo como dizem?
Não, não. Ronaldinho era um cara que dava dois passos e parecia que o
passo dele era diferente, aí todo mundo já comentava. Mas o Ronaldo
continua a mesma pessoa que conheci em 2001: tranquila, amiga, de grupo.
Ele quer viver a vida dele, jogar futebol, dar alegrias e, às vezes,
as pessoas confundiam muito.
Nesses 10 anos de penta, qual a lembrança mais forte que você tem da Copa de 2002?
O que eu mais gosto de lembrar, que é mais forte na minha memória, além
de a gente ter conquistado o pentacampeonato, o troféu, o que eu mais
gosto de lembrar é aquela bola na trave na final. Foi um momento que
ficou marcado na minha carreira. Até hoje encontro torcedores que
comentam. Se aquela bola na trave tivesse entrado... Foi uma coisa que
me marcou bastante, porque naquela final eu surpreendi mesmo, acabei
jogando muito bem e ajudando bastante o Brasil a conquistar o título.
Qual foi importância da "Família Scolari" naquele título?
Até a gente ir pra Copa, a gente tava recebendo muitas críticas. Até
comentaram que eu iria assistir à Copa de chinelo, sentado. A pressão
pra levar o Romário, todo mundo gritava o Romário. Aí uma dúvida em cima
do Ronaldo. A gente se fechou ali e formou a família do Scolari. Aos
poucos a gente conseguiu trazer torcida e imprensa pro nosso lado e, no
final, conseguimos dar uma resposta positiva.
Fonte: Correio*





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